Um autor e um ator sentam, em um camarim de gravação, para conversarem. O Ator pega um copo de água e começa a folhear um Script. O Autor abre o laptop, acende um cigarro e pega o mesmo Script. Ambos ficam em silencio e depois começam uma calorosa discussão.
[Ator] -Eu não imagino você como um daqueles escritores estranhos que fumam incessantemente, cigarros após cigarros pela frustração de não conseguir escrever. Que sentam na frente do computador, ora com um copo americano de uísque barato e ora com um copo de café amargo para ficar acordado mesmo depois de tantas tentativas. Aqueles que querem tudo tão perfeito que demoram anos para escrever uma frase. E quando esta fica pronta acham que não está boa e partem para outro assunto ou pior ainda; depois de tantas tentativas começam a chorar e dizer que não foram feitos para isso. Ser escritor é muito solitário, ser personagem é muito melhor.
[Autor] – Pois eu não imagino você encima de um palco interpretando coisas que eu escrevo, e nem tão bem assim. Não imagino você repetindo mil vezes aquilo que não conseguiu dar ênfase, com sua falta de talento. Fazendo caras e bocas para um teatro vazio. Ou você preferiria a televisão? Onde tudo é igual, as histórias são iguais...
[Ator] – Sobre isso, não coloque a culpa em mim. Se é tudo igual a culpa não é do ator que como você disse, está ali apenas para interpretar, e sim dos aUtores que não têm criatividade e originalidade para escrever algo diferente de engravidar para segurar um homem.
[Autor] – Em primeiro lugar não estamos falando de culpa e sim de divisão de papeis. Para que tudo desse certo seria preciso que cada um fizesse o seu melhor. E você sugere o que? Que para um homem não deixar a mulher ela o sequestrasse ou matasse?
[Ator] – Claro que não, ou sim. E se fizesse da mulher uma pessoa melhor ao invés de torna-la uma vilã? Será sempre assim que serão criadas as vilãs. E o exemplo de que é melhor fazer o bem?
[Autor] –Mas, já temos o exemplo de que o bem ganha no final.
[Ator] – Nunca seremos melhor se essa filosofia continuar. E se o autor pirasse e resolvesse fazer com que o mocinho virasse vilão e ficasse tudo bem no final. Vocês só pensam em dar exemplos para a humanidade, mas e a essência e originalidade da obra?
[Autor]- Cada um, mesmo sendo tão parecidos, tem a sua essência. Pare de jogar a sua frustação em cima dos autores, me conte com o que você não está contente. O diálogo é a melhor solução.
[Ator] – E não é isso que estamos fazendo? Conversando! Na verdade nada está me frustrando. Estamos apenas trocando opiniões.
[Autor] – Vocês atores são tão dramáticos, exageram muito!
[Ator] – Mas esse é o nosso papel. E vocês autores que vivem sempre serenos, sempre com a resposta na ponta da língua.
[Autor] – Esse é o nosso papel. Esperamos mudar o mundo, desarmar exércitos com as palavras.
[Ator] – Esse também é o nosso propósito. Mas, nós gostamos de dar vida ao que vocês escrevem. Levando sorrisos e emoções intensas para as pessoas. Cada um de nós desempenha um papel muito bonito na sociedade!
[Autor] – É, pena o mundo estar cada vez menos interessado em pessoas assim...
[Ator] - Sem falar na arte e na cultura.
[Autor] - É melhor nem comentarmos, estou com dor de cabeça.
[Ator] - é o café...
[Autor] - Na verdade é porque passei a noite em claro terminando o espetáculo da sua vida.
- Sem personagem não ha escritor. Sem escrito não há personagem. E se os dois forem a mesma pessoas?...
N.A - "Meu lado autor quer escrever coisas bonitas e chocantes, e meu lado ator quer dar vida a elas"
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